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De Aluno a Professor: Inês Guerreiro

Inês Guerreiro  ·  2026

Começo pelo fim. Que é, afinal, o início.

Sentada em siddhasana, rodo os ombros para cima e para trás, encaixando omoplatas e abrindo o coração para a prática. Mãos pousadas sobre os joelhos, olhos fechados para fora, abertos para a imensa extensão da paisagem interior. Faço uma inspiração profunda, com propósito, seguida de uma expiração longa.

Um gesto intencional, aprendido ao longo de cerca de vinte anos de prática: tateante, regular, intermitente, aplicada, saboreada. Uma atitude. A abrir um parágrafo, no tempo e no espaço. A criar uma cápsula no tapete mágico, capaz de operar as metamorfoses mais inusitadas e incríveis. A encetar um instante de serenidade, descoberta, conquistas e imperfeições.

Tudo começa aqui. Estou pronta. Corpo, mente e espírito.

E, de súbito, lembro-me: estou do outro lado, na outra margem da prática. Sem certo nem errado. Abro uma frincha do olhar, e ali estão eles, os meus queridos alunos. Expectantes, focados, a aguardar as minhas palavras.

Chamo-me Inês Guerreiro. Tenho quase 55 anos. E nunca quis dar aulas de Yoga.

Uma vida feita de livros

O que faço desde sempre? Livros. A vida inteira naveguei pelos livros. Uma imersão profunda em criança, adolescente, um refúgio para a minha existência tímida e introspetiva. Voguei pela literatura na faculdade, aprendendo a conhecer-lhe os truques, as manhas, os sentidos, a explicar as complexidades da sua beleza, e, mais tarde, em mestrado e pós-graduações, também a sua natureza objetual, o livro como produto. Interrompido um percurso de lecionação e investigação num mercado incapaz de absorver mais gente de Letras, tropecei no mundo editorial. Aí me enraizei há trinta anos e fui crescendo e ramificando, a traduzir e rever livros para quase todas as casas que os produzem no nosso país.

No ponto em que me situo, hoje, sou feliz, muito feliz.

Mas não foram nem os livros nem as palavras a oferecer-me esse estado de plenitude. Foi o Yoga. Procurei a paz interior e a alegria a vida inteira. E, por fim, nas duas últimas décadas, muito de mansinho, o Yoga ensinou-me santosha, o contentamento interior, um lume que brilha cá dentro sem querer saber dos obstáculos que surgem pelo caminho.

Inês Guerreiro professora de yoga aula ao ar livre num jardim em Lisboa

Inês Guerreiro — uma aula ao ar livre, onde o tapete encontra a natureza.

A formação BeYoga: sete meses de construção e desconstrução

O Yoga foi uma construção. De confiança, de sentidos. Foi eliminar medos também. Do fracasso, da imperfeição, do desalinhamento. Pranayamas e asanas criaram um espaço sem passado ou futuro onde podia existir apenas, sem ansiedade, mágoas, angústias ou receios. As aprendizagens do Yoga foram tão transformadoras que senti necessidade de perceber melhor o que acontecia quando praticava, que magia era essa sem poção ou varinha capaz de instilar um bem-estar tão profundo e como poderia explorar ainda mais os seus benefícios.

Foi assim que cheguei à formação de professores de Yoga da BeYoga. Demos o braço, eu e o Paulo Vieira, e andámos a espreitar vários projetos. Seduziu-nos o da Carla Gonçalves pela abrangência e organização dos conteúdos, pela mentoria oferecida depois da formação e pela imensa experiência técnica e teórica, bem como pelo profissionalismo da formadora. Recordo, na aula experimental que fizemos com a Carla na sala de Alcântara, ter logo desconstruído «o meu Adho Mukha Svanasana» e aprendido novos alinhamentos. Um grande namasté, Carla (aqui na minha reverência de guerreira humilde)!

Avançámos, então, em janeiro de 2023. E que sete meses foram! Senti-me simultaneamente em construção e desconstrução. Muitas das minhas convicções esboroaram-se: tenho tudo sob controlo, domino a ansiedade, a minha preocupação com o desempenho já não me assalta ou impede de dormir, lido bem com os desafios. Cada exercício teórico, cada vídeo gravado, cada apresentação exigiram uma reinvenção de dogmas e preconceções internos.

Sim, tinha mais de cinquenta anos e estava a aprender anatomia, palavras em sânscrito, ferramentas didáticas. Até ao fim disse: eu não vou dar aulas.

Quando concluí a formação, estava exausta, sem mais uma fibra muscular, a mente esvaída, a identidade virada do avesso como uma camisola, quando o direito já não tem préstimo.

«Mas eu não vou dar aulas.»

Meteu-se o verão. «Mas eu não vou dar aulas.» Todos me perguntavam quando começaria, que era inevi­tável. «Mas eu não vou dar aulas. Tenho uma profissão.» Riam-se, como se houvesse um destino por cumprir identificado pelas pessoas que me conheciam, ignorado por mim. «Mas eu não vou dar aulas. Tenho uma vida.» No Sri Lanka, no shala construído pela Dri e pelo Filipe, dei um esboço de aula para os meus queridos amigos. A saber a liberdade e a mar. «Mas eu não vou dar aulas. Estamos só a brincar.»

No regresso a Lisboa, ao longo dos meses, tropecei em algumas oportunidades. «Mas eu não vou dar aulas.» E então escutei a minha amiga: «Podes não dizer que sim, mas não digas não. Aceita o que o universo tiver preparado para ti.»

Foi o início dos inícios. Está bem, respondi. E senti um alívio imenso. E ao mesmo tempo o formigueiro na barriga que antecede os grandes passos.

Inês Guerreiro aula de yoga ao ar livre grupo em movimento com braços abertos

A alegria de um grupo em movimento — Yoga ao ar livre com a Inês.

A missão que nasceu sem querer

Surgiram muitas ofertas que deveriam ter sido «recusáveis» pelo ínfimo número de alunos, pela distância de casa, pelo reduzido valor pago. Mas aceitei tudo o que me apareceu, durante cerca de um ano: aulas em estúdios, hotéis, ginásios, com uma a mais de vinte e cinco pessoas, no jardim, substituições, sessões em retiros, na minha própria casa, no clube desportivo ao fundo da minha rua. Dei aulas com a chuva a cair no palco, com os gritos do cycling no piso de cima, melgas a picar, a estrangeiros, crianças e adultos, com e sem ar condicionado. E a menopausa ao barulho!

Reduzi presentemente o meu horário de aulas, ajustando as forças ao desejo de chegar ao outro com qualidade. Fixei-me na minha área residencial, com a facilidade de regressar depressa a casa, ao meu jardim, aos livros, à família e aos meus cinco gatos. Mantive o clube antigo de bairro, com vizinhos, a minha comunidade, e, contra todas as expectativas, um ginásio, para não me destreinar do tumulto. Além das aulas em casa, uma bênção.

Começarei em breve um projeto de Yoga para crianças na Fundação Nossa Senhora do Bom Sucesso, instituição de saúde infantil da minha área que celebra em 2026 75 anos. Desejo poder construir um espaço de pausa e escuta ativa — um lugar seguro e confortável onde as crianças possam simplesmente ser, sem pressas, expectativas ou julgamentos, compreender o seu corpo, destrinçar a complexidade das suas emoções, reforçar a autoestima e desenvolver ferramentas para lidar com estímulos constantes, exigências escolares e ansiedade.

Ao longo deste percurso, fui aprendiz de maga em cada passo. E o maior ensinamento foi mesmo o da humildade. Recordo sempre, sempre as palavras da Carla: não são vocês, professores, é o Yoga.

Hoje, Yoga para mim não é apenas prática pessoal, é missão. Saber estar plenamente no presente representa viver com qualidade, de olhos abertos e desassombrados. Ter Yoga na vida é transformar silenciosamente a forma como habitamos o mundo — num sentido mais válido e humano.

Termino rodando os ombros, abrindo o coração para a vida. Numa inspiração profunda, trago as mãos em anjali mudra, frente ao peito, e expresso a minha gratidão — pelas experiências, pelas imperfeições, pelas conquistas. Sem elas não poderia ser tão feliz.

Namasté, Inês Guerreiro

Formação em Yoga

Professora de Yoga (200h), Yoga Nidra (10h), Meditação e Mindfulness (10h) e Pranayamas (10h), pela BeYoga School de Carla Gonçalves — escola certificada pela Yoga Alliance como RYS 200, DGERT e IPDJ.

Yoga para Crianças (32h), pelo Instituto Português de Yoga e Mindbody.

Líder de Yoga do Riso/Risoterapia, com a Master Trainer Sabrina Tacconi.

Contactos

📧 guerreiroi@gmail.com

📞 917 974 013

📷 Instagram: @guerreiroi_

Inspira-te e dá o próximo passo

A tua formação começa aqui.

Como a Inês, muitos alunos chegam sem intenção de ensinar — e partem com uma missão. Conhece a formação BeYoga e descobre o que pode mudar na tua vida.

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