Quanto de nós cabe na prática?
Sobre presença, somática e o que existe para lá da forma. Vanda Sousa, terapeuta holística e fundadora da Soma Groove, escreve sobre o que muda quando deixamos de executar a postura e começamos a escutá-la.
Tenho um enorme respeito e amor pela Carla, pela pessoa, pela professora de Yoga e pela professora de professores. Sinto a complementaridade entre aquilo que cada uma de nós traz e representa. Por isso, faço as aulas dela sempre que posso, tal como ela faz as minhas. Tive a honra de partilhar a minha experiência e as minhas práticas com a família BeYoga em variados workshops e, mais uma vez, estou muito feliz por estar aqui a escrever sobre a minha verdade para esta família.
Durante muito tempo, achei que a presença era uma forma de calma. Que estar presente era sentar, respirar e encontrar serenidade. Hoje, acho que isso é apenas parte da história. Há outra parte, talvez menos confortável, que nem sempre sabemos acolher: o lado humano, imprevisível e complexo, que nem sempre cabe na forma e que, por vezes, nos surpreende.
Presença não é necessariamente calma.
É estar inteira com o que há, com o que é.
Pode ser cansaço, inquietação, vontade de chorar ou um impulso de movimento que nenhuma sequência previa. A calma, quando vem, é muitas vezes consequência de termos ficado. Nunca precisou de ser o objetivo.
A estrutura é um presente
Tenho um enorme respeito pela estrutura do Yoga. Dá-nos orientação, referências e um caminho para chegar ao corpo. Sem ela, muitas pessoas talvez nunca encontrassem essa porta. Há uma frase frequentemente atribuída a Picasso:

Aprender as regras como um profissional para as quebrar como um artista.
Gosto de imaginar um terceiro passo: chega um momento em que já não precisamos de quebrar as regras. Podemos habitar a forma com tanta intimidade que deixamos de confundir o mapa com o território.
A estrutura não é o problema. A questão é o que acontece quando nos esquecemos de que ela existe para nos servir e começamos a servir a estrutura.
A postura como conversa

Na somática, o foco desloca-se da forma exterior para a experiência vivida por dentro.
A palavra vem do grego soma e ganha nuances diferentes consoante a cultura. Simplificando, significa corpo ou, numa leitura mais espiritual, o néctar dos deuses.
Para mim, a forma mais simples de a descrever é talvez esta: a experiência interior, sensorial e intuitiva de um corpo habitado, tal como é sentido e vivido pela própria pessoa — não apenas aquilo que podemos observar de fora.
«Estou a fazer bem esta postura?»
«O que está a acontecer em mim enquanto a faço?»
O que sinto?
Onde há espaço, tensão, resistência ou curiosidade?
O que muda quando respiro, quando abrando ou quando deixo de tentar chegar a algum lugar?
A postura deixa de ser apenas algo a executar e torna-se uma oportunidade de escuta. Não para encontrarmos sempre uma resposta, mas para desenvolvermos uma relação mais íntima com a nossa experiência.
Em Soma Groove, gosto de explorar precisamente este território: o encontro entre movimento, respiração, música e escuta interna. Não para fazer mais ou melhor, mas para descobrir o que se torna possível quando deixamos de estar apenas a executar e começamos a participar na experiência.


Fotografias: Soma Groove
Testemunhar não é o mesmo que sentir?

Na meditação, aprendemos a observar os pensamentos sem nos confundirmos com eles. Desenvolvemos a capacidade de testemunhar, de criar espaço entre aquilo que acontece e a forma como reagimos.
É uma aprendizagem preciosa. Mas pergunto-me: e se, além de observarmos a experiência, também aprendêssemos a habitá-la?
A prática somática traz-nos este superpoder: o de ser, habitar e testemunhar a experiência, tudo ao mesmo tempo.
Na minha perspetiva, é nesse encontro que podemos tocar a quintessência da experiência humana: a união entre espírito, coração, corpo e mente, inteiros e presentes naquele preciso instante.
Habitar é sentir sem precisar de explicar imediatamente. É permitir que uma emoção se manifeste, que o corpo encontre um movimento, que a respiração mude, sem termos de transformar tudo numa conclusão lógica.
Não significa perder o discernimento ou agir sobre cada impulso. Significa dar à experiência tempo e espaço antes de a mente decidir o que ela deve ser.
Por vezes, o corpo dá-nos pistas que ainda não conseguimos traduzir em palavras. Escutá-las não é ter todas as respostas. É estarmos disponíveis para fazer perguntas diferentes.
O que se transmite para além da técnica?
É aqui que esta exploração se torna especialmente importante para quem ensina.
Podemos conhecer a anatomia, dominar as sequências, dar instruções claras e corrigir uma postura com precisão. Tudo isso importa. Mas ensinar também é criar condições para que outra pessoa possa estar consigo própria, sem sentir que precisa de representar uma versão ideal de si.
Sabemos como a performance pode entrar na prática, sobretudo no início: querer executar melhor, alcançar determinada postura, acompanhar o grupo ou corresponder à imagem que temos de um bom praticante.
Por isso, acredito que a forma como transmitimos importa tanto como aquilo que ensinamos. Os alunos percebem o espaço que somos capazes de habitar muito antes de conseguirem explicar porquê.
Segurar espaço não é controlar o que acontece.
É conseguir acompanhar o que emerge sem precisar de o corrigir imediatamente, sem confundir desconforto com erro e sem transformar cada experiência numa oportunidade de melhoria.
Isto também se aprende. Podemos criar espaço para a experiência humana dentro da orientação, da técnica e da estrutura. Não precisamos de escolher entre rigor e liberdade, entre segurança e autenticidade.
Quanto de nós cabe no tapete?
Talvez a pergunta não seja apenas quanto de nós conseguimos expressar durante a prática, mas quanto de nós nos permitimos realmente trazer para ela.
Para quem ensina, há ainda uma segunda pergunta: estou a convidar os meus alunos a descobrir a sua própria experiência ou a reproduzir a minha ideia de como ela deveria ser?
Não precisamos de ter todas as respostas. Precisamos de continuar curiosos, de reconhecer os nossos limites e de explorar os territórios que ainda não sabemos habitar.
O Yoga pode ser uma porta extraordinária, mas há tantas outras portas que nos podem ajudar a aprofundar a relação com o corpo, com a nossa humanidade e com aquilo que ainda não conhecemos em nós.
No meu trabalho, gosto de explorar os espaços entre a estrutura e o caos, entre a observação e a expressão, entre aquilo que sabemos fazer, aquilo que ainda estamos a descobrir e aquilo de que não fazemos sequer ideia!
Talvez a verdadeira prática comece quando deixamos de tentar ser bons praticantes e nos permitimos ser humanos verdadeiros.
Quando a forma deixa de ser um limite e se torna uma porta. Quando já não procuramos apenas dominar o corpo, mas descobrir o que ele tem para nos revelar sobre a vida, sobre nós e sobre aquilo que ainda não ousámos sentir.
Porque, no fundo, não se trata apenas de quanto de nós cabe no tapete, mas de quanto espaço nos damos para sermos quem somos, para lá de todas as formas que aprendemos a habitar.
Se algo nesta partilha ressoou, há mais para descobrir. A minha porta está aberta. Este é apenas o início.
Unveiling · 31 out – 7 nov
Se algo despertou com esta leitura, este é o momento! De 31 de outubro a 7 de novembro, em Monchique, no Algarve, a Vanda abre as portas do retiro Unveiling: uma semana para explorar o que existe por detrás das máscaras que usamos, libertarmo-nos delas, viver a partir de um espaço mais livre e autêntico e descobrir novas formas de nos relacionarmos connosco e com os outros.