Guia para professores

Yoga Restaurativo: o que é, como atua no sistema nervoso e como se ensina

Um guia rigoroso sobre a prática do descanso profundo. Explica de onde vem e o que a investigação diz sobre o sistema nervoso. Apresenta as onze posturas apoiadas e o que um professor precisa de dominar para a ensinar com segurança. Escrito a partir do ensino da Carla.Por Carla Gonçalves · 8 min de leitura
11posturas apoiadas ensinadas uma a uma
5práticas completas no curso
30 hde formação contínua Yoga Alliance

Resposta rápida: O Yoga Restaurativo é a prática do descanso profundo: o corpo fica totalmente apoiado em mantas, almofadas e blocos, em posturas mantidas durante mais tempo, para favorecer a resposta de relaxamento do sistema nervoso. Para o ensinar é preciso conhecer as posturas apoiadas e os seus cuidados, e saber conduzir a aula num ambiente seguro.

O que é o Yoga Restaurativo e de onde vem

O Yoga Restaurativo é a prática do descanso profundo. Em vez de fortalecer ou alongar, apoia o corpo por inteiro e deixa-o ficar o tempo suficiente para que o sistema nervoso mude de estado. Um princípio orienta todo o curso: «lento é rápido, e menos é mais».

Tal como hoje se ensina, é uma abordagem moderna. Nasce das posturas apoiadas com acessórios que B.K.S. Iyengar sistematizou a partir de Light on Yoga (1966) e do seu instituto em Pune, aberto em 1975 (Iyengar, 1966). Judith Hanson Lasater, fisioterapeuta e aluna de Iyengar, deu-lhe nome e forma autónoma com Relax and Renew (Lasater, 1995). Para ela, relaxar não é ficar inerte: é «um estado dinâmico». Matthew Sanford levou depois esta herança ao yoga adaptado a pessoas com deficiência (Sanford, 2006).

Na raiz está śavāsana, que a Haṭhayogapradīpikā (1.32) já descrevia como a postura que «remove a fadiga e dá descanso à mente» (Akers, 2002).

O estilo mais próximo é o Yin Yoga. Ambos usam acessórios e permanências longas, sem posturas de pé. Mas o Yin procura alongar o tecido conjuntivo, com permanências de 3 a 5 minutos, enquanto o Restaurativo procura o descanso profundo, com permanências que podem chegar aos 20 minutos. O Vinyasa, energizante e em movimento, encontra nele um complemento para recuperar. A comparação detalhada está em o nosso artigo Yoga Restaurativo vs Yin Yoga.

Ideia-chave

Não é uma versão facilitada de outros estilos: tem um objetivo próprio, o descanso que permite ao corpo regenerar-se.

A resposta de relaxamento: o que está medido e o que é modelo

Nos anos 1970, o cardiologista Herbert Benson descreveu a resposta de relaxamento. Em meditadores, mediu quedas do consumo de oxigénio, da frequência respiratória e cardíaca e da tensão arterial: um estado «hipometabólico desperto», o inverso da resposta de stress (Benson, Beary & Carol, 1974).

O sistema nervoso autónomo alterna entre o simpático, que prepara a luta ou a fuga, e o parassimpático, do descanso e da digestão. O problema é ficar preso no primeiro. O corpo não distingue um perigo real de um prazo apertado, e o stress repetido esgota-o (McEwen, 1998). O Yoga Restaurativo funciona como descanso ativo, que ajuda o parassimpático a entrar em ação.

Nos ensaios, as práticas de yoga com respiração lenta e relaxamento baixam de forma modesta a tensão arterial e a frequência cardíaca (Pascoe et al., 2017), e a respiração lenta aumenta os sinais da atividade do nervo vago (Zaccaro et al., 2018). A calma e a melhoria do humor relatadas estão bem documentadas em yoga restaurativo (Danhauer et al., 2009), mas as substâncias envolvidas não foram medidas. Estes ensaios são poucos e pequenos; a maior parte da investigação é sobre o yoga em geral.

O curso usa também modelos explicativos e assume as suas limitações:

Calm Cascade. O modelo pedagógico da BeYoga para o encadeamento de processos que leva ao relaxamento profundo, descrito em quatro etapas: acalmar, sintonizar, deixar ir e reparar.

Teoria polivagal. Proposta por Stephen Porges (1995, 2011), é muito usada no ensino do yoga, mas as suas premissas fisiológicas são contestadas (Grossman & Taylor, 2007; Grossman, 2023). Serve de mapa pedagógico, não de facto estabelecido.

Cérebro triuno. A imagem de Paul D. MacLean (1990) ajuda a explicar porque reagimos antes de pensar. É uma metáfora: o cérebro não evoluiu por camadas empilhadas (Cesario et al., 2020).

Descarga. A ideia de que o corpo «sacode» o stress, popularizada por Peter Levine, é uma hipótese clínica sugestiva, não um facto demonstrado (Kuhfuß et al., 2021).

Ideia-chave

Um bom professor distingue o que está medido do que é imagem útil, e explica essa diferença aos alunos com honestidade.

Praticante em repouso com as pernas elevadas na parede e um bolster sob a baciaPernas elevadas na parede, uma das onze posturas do curso.

As onze posturas de Yoga Restaurativo

As posturas restaurativas incluem torções suaves, flexões do tronco no solo, extensões apoiadas e inversões. Os acessórios cumprem quatro funções: suporte, ancoragem, contenção e expansão. A regra comum é o mínimo esforço: a respiração tem de acontecer sem tensão. O curso ensina onze posturas, cada uma com um propósito próprio.

Sālamba Śavāsana (relaxamento apoiada). A base da prática: descanso completo do corpo e da mente, deitado e sem tensões.

Supta Baddha Koṇāsana (ângulo fechado reclinada). Abre suavemente as ancas e o peito e liberta a tensão da parte inferior do corpo.

Viparīta Karaṇī (pernas elevadas na parede). Alivia o peso das pernas e favorece o retorno do sangue ao coração.

Bālāsana (postura da criança). Recolhimento que alonga suavemente a coluna e convida à introspeção.

Pārśva Bālāsana (criança de lado). Variação que alonga a lateral do tronco, as costelas e as ancas.

Sālamba Sukhāsana Uttānāsana (confortável com flexão apoiada). Flexão para a frente, sentada, que alonga as costas sem forçar.

Setu Bandha Sarvāṅgāsana (ponte apoiada). Abre o peito e alonga a coluna, com o objetivo de relaxar e não de fortalecer.

Matsyāsana (peixe apoiada). Expande a caixa torácica e facilita uma respiração mais ampla.

Supta Parivartanāsana (torção reclinada). Torção suave que dá mobilidade à coluna e alivia costas sobrecarregadas.

Supta Matsyendrāsana (torção deitada com apoio). Solta com suavidade a rigidez lombar de quem passa muito tempo sentado.

Sālamba Prasāraṇāsana (prancha de descanso). Posição de descanso de barriga para baixo, para preparar ou terminar uma prática.

Ideia-chave

A forma de cada postura muda com o corpo de quem a pratica. A montagem dos apoios, os cuidados e as variantes são matéria do Curso de Yoga Restaurativo.

Praticante na postura do ângulo fechado reclinada, com cinto, blocos e bolsterPostura do ângulo fechado reclinada, com cinto, blocos e bolster.

Princípios gerais de segurança

A regra de ouro é simples: a prática é suave e sem dor. Uma postura restaurativa nunca se «aguenta». Dor, formigueiro, dormência, tontura, falta de ar, náusea ou ansiedade a crescer são sinais para sair devagar, com ajuda se for preciso (Cramer et al., 2019).

O Yoga Restaurativo não substitui o aconselhamento nem o tratamento médico. Em caso de dúvida, convém consultar um médico antes de começar. O professor de yoga não diagnostica nem prescreve: pergunta, adapta e remete para o médico ou o fisioterapeuta (Yoga Alliance, 2020; IAYT, 2020).

Algumas condições mudam a forma de conduzir a aula, como a gravidez, a hipertensão, o glaucoma, a osteoporose ou a apneia do sono. Lesão, cirurgia ou parto recentes, doença crónica instável, idosos frágeis e crianças pedem sempre o aval do profissional de saúde.

Consentimento. Pede-se sempre permissão antes de tocar num aluno, e o mesmo vale para os sacos de areia e a cobertura dos olhos (Justice et al., 2018).

Ansiedade. O relaxamento pode aumentar a ansiedade nalgumas pessoas (Heide & Borkovec, 1983). Ajuda uma linguagem que convida em vez de mandar, com liberdade para sair a qualquer momento.

Sono. Adormecer na aula não é perigoso nem é falhar, mas a prática não substitui o sono (Krause et al., 2017).

O que se aprende no curso de Yoga Restaurativo

Conhecer as posturas pelo nome não chega para as ensinar. O Curso de Yoga Restaurativo é online, ao ritmo de cada um, com 30 horas, em português com a Carla.

As onze posturas, uma a uma. Cada postura em vídeo, com benefícios, cuidados, material, dobras de manta, substituições quando faltam acessórios e adaptações para condições como a gravidez ou o glaucoma.

Sequência e estrutura. Como organizar uma aula do enraizamento ao encerramento em śavāsana, fazer transições suaves e integrar posturas restaurativas em aulas de outros estilos.

Voz e ambiente. Receber os alunos como convidados, escolher palavras que abrem possibilidades, usar o silêncio e acolher as emoções com discrição.

Cinco práticas completas. Relaxamento Profundo, Regeneração e Cura, Renovação e Equilíbrio, Alívio e Conforto, e uma quinta, a mais longa, para viver primeiro o que depois se ensina.

Avaliação e certificação. Testes por unidade, uma aula própria de 30 minutos avaliada pela Carla e um exame final com 80% ou mais. Dá 30 horas de formação contínua Yoga Alliance emitidas por uma YACEP.


Yoga Restaurativo: perguntas frequentes

O que é o Yoga Restaurativo?

É uma prática de yoga centrada no descanso profundo e na recuperação física e mental. Em vez de trabalhar a força ou a flexibilidade, apoia o corpo por inteiro com acessórios e mantém as posturas durante mais tempo, para que o corpo entre num estado de relaxamento profundo. Descende das posturas apoiadas de B.K.S. Iyengar e ganhou nome próprio com Judith Hanson Lasater (Lasater, 1995).

Qual é a diferença entre Yoga Restaurativo e Yin Yoga?

Partilham o uso de acessórios, a ausência de posturas de pé e as permanências longas. A intenção é diferente: o Yin Yoga procura alongar o tecido conjuntivo e as articulações, enquanto o Yoga Restaurativo põe o corpo em descanso profundo e foca-se no sistema nervoso. No Yin as posturas duram em regra 3 a 5 minutos; no Restaurativo podem chegar aos 20. Para estudar o outro estilo existe o Curso de Yin Yoga.

O Yoga Restaurativo ajuda com a ansiedade e o stress?

A investigação sobre yoga em geral mostra reduções pequenas a moderadas dos sintomas de ansiedade e depressão com prática regular, como complemento do tratamento (Cramer et al., 2013, 2018). Os ensaios específicos de yoga restaurativo são poucos e pequenos. A prática pode ajudar a gerir o stress, mas não trata nem cura nenhuma condição e não substitui o acompanhamento médico ou psicológico.

Quem pode praticar Yoga Restaurativo?

É uma prática acessível a quase todos, seja qual for a idade, a experiência ou a condição física, precisamente porque os acessórios permitem adaptar cada postura. Algumas condições, como a gravidez, a hipertensão, o glaucoma ou a osteoporose, pedem adaptações específicas que o professor deve conhecer. Em caso de dúvida, convém consultar um médico antes de começar.

Que acessórios são precisos para Yoga Restaurativo?

O material habitual inclui tapete, mantas, almofada cilíndrica (bolster), blocos, cintos, sacos de areia e cobertura para os olhos. A parede e a cadeira também servem de apoio. Não é obrigatório ter tudo: almofadas normais podem substituir o bolster, livros podem fazer de blocos e um lenço pode servir de cinto. O essencial é que o corpo fique apoiado sem esforço.

O Yoga Restaurativo substitui o sono ou uma sesta?

Não. O relaxamento profundo é um estado consciente, em que as ondas cerebrais abrandam sem chegar ao nível do sono. O sono profundo e o sono REM fazem um trabalho de reparação que nenhuma prática acordada substitui (Krause et al., 2017). A prática pode ajudar a preparar a noite e associa-se a melhor qualidade percebida do sono (Wang et al., 2020).

Aprender a ensinar

Curso de Yoga Restaurativo

Online, 30 horas de formação contínua Yoga Alliance, onze posturas apoiadas e uma aula própria avaliada pela Carla.

Fontes citadas neste artigo

Akers, B. D. (Trad.). (2002). The Hatha Yoga Pradipika: The original Sanskrit and an English translation. YogaVidya.com.

Cesario, J., Johnson, D. J., & Eisthen, H. L. (2020). Your brain is not an onion with a tiny reptile inside. Current Directions in Psychological Science, 29(3), 255-260. https://doi.org/10.1177/0963721420917687

Grossman, P. (2023). Fundamental challenges and likely refutations of the five basic premises of the polyvagal theory. Biological Psychology, 180, 108589. https://doi.org/10.1016/j.biopsycho.2023.108589

Grossman, P., & Taylor, E. W. (2007). Toward understanding respiratory sinus arrhythmia: Relations to cardiac vagal tone, evolution and biobehavioral functions. Biological Psychology, 74(2), 263-285. https://doi.org/10.1016/j.biopsycho.2005.11.014

Iyengar, B. K. S. (1966). Light on yoga. George Allen & Unwin.

Kuhfuß, M., Maldei, T., Hetmanek, A., & Baumann, N. (2021). Somatic experiencing – effectiveness and key factors of a body-oriented trauma therapy: A scoping literature review. European Journal of Psychotraumatology, 12(1), 1929023. https://doi.org/10.1080/20008198.2021.1929023

Lasater, J. H. (1995). Relax and renew: Restful yoga for stressful times. Rodmell Press.

MacLean, P. D. (1990). The triune brain in evolution: Role in paleocerebral functions. Plenum Press.

Porges, S. W. (1995). Orienting in a defensive world: Mammalian modifications of our evolutionary heritage. A Polyvagal Theory. Psychophysiology, 32(4), 301-318. https://doi.org/10.1111/j.1469-8986.1995.tb01213.x

Porges, S. W. (2011). The polyvagal theory: Neurophysiological foundations of emotions, attachment, communication, and self-regulation. W. W. Norton.

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Benson, H., Beary, J. F., & Carol, M. P. (1974). The relaxation response. Psychiatry, 37(1), 37-46. https://doi.org/10.1080/00332747.1974.11023785

Cramer, H., Lauche, R., Anheyer, D., Pilkington, K., de Manincor, M., Dobos, G., & Ward, L. (2018). Yoga for anxiety: A systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Depression and Anxiety, 35(9), 830-843. https://doi.org/10.1002/da.22762

Cramer, H., Lauche, R., Langhorst, J., & Dobos, G. (2013). Yoga for depression: A systematic review and meta-analysis. Depression and Anxiety, 30(11), 1068-1083. https://doi.org/10.1002/da.22166

Danhauer, S. C., Mihalko, S. L., Russell, G. B., Campbell, C. R., Felder, L., Daley, K., & Levine, E. A. (2009). Restorative yoga for women with breast cancer: Findings from a randomized pilot study. Psycho-Oncology, 18(4), 360-368. https://doi.org/10.1002/pon.1503

Krause, A. J., Ben Simon, E., Mander, B. A., Greer, S. M., Saletin, J. M., Goldstein-Piekarski, A. N., & Walker, M. P. (2017). The sleep-deprived human brain. Nature Reviews Neuroscience, 18(7), 404-418. https://doi.org/10.1038/nrn.2017.55

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Wang, W.-L., Chen, K.-H., Pan, Y.-C., Yang, S.-N., & Chan, Y.-Y. (2020). The effect of yoga on sleep quality and insomnia in women with sleep problems: A systematic review and meta-analysis. BMC Psychiatry, 20, 195. https://doi.org/10.1186/s12888-020-02566-4

Zaccaro, A., Piarulli, A., Laurino, M., Garbella, E., Menicucci, D., Neri, B., & Gemignani, A. (2018). How breath-control can change your life: A systematic review on psycho-physiological correlates of slow breathing. Frontiers in Human Neuroscience, 12, 353. https://doi.org/10.3389/fnhum.2018.00353

Cramer, H., Krucoff, C., & Dobos, G. (2013). Adverse events associated with yoga: A systematic review of published case reports and case series. PLOS ONE, 8(10), e75515. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0075515

Cramer, H., Quinker, D., Schumann, D., Wardle, J., Dobos, G., & Lauche, R. (2019). Adverse effects of yoga: A national cross-sectional survey. BMC Complementary and Alternative Medicine, 19, 190. https://doi.org/10.1186/s12906-019-2612-7

Heide, F. J., & Borkovec, T. D. (1983). Relaxation-induced anxiety: Paradoxical anxiety enhancement due to relaxation training. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 51(2), 171-182. https://doi.org/10.1037/0022-006X.51.2.171

International Association of Yoga Therapists. (2020). Scope of practice for yoga therapy (rev. 1 de setembro de 2020). https://cdn.ymaws.com/www.iayt.org/resource/resmgr/docs_certification_all/2020_updates_scope_ethics/2020-09_sop_v2.pdf

Justice, L., Brems, C., & Ehlers, K. (2018). Bridging body and mind: Considerations for trauma-informed yoga. International Journal of Yoga Therapy, 28(1), 39-50. https://doi.org/10.17761/2018-00017R2

Yoga Alliance. (2020). Scope of practice. https://yogaalliance.org/policies-priorities-progress/scope-of-practice/

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