Yoga pré-natal · Guia para professores

Yoga na gravidez por trimestre: o que muda, que posturas servem e como praticar com segurança

Do primeiro ao terceiro trimestre, o corpo muda depressa e a prática tem de mudar com ele. Este guia para professores de yoga resume o que acontece em cada fase, o quadro de segurança e o papel da respiração. Parte do curso da formadora Nélia Rodrigues.Por Nélia Rodrigues · 7 min de leitura
39posturas demonstradas com as opções de cada trimestre
20 semanaso fundo do útero chega à altura do umbigo
30 a 50%aumento do volume de cada respiração na gravidez

Resposta rápida: No primeiro trimestre, a prática respeita a fadiga e as náuseas, com ritmo calmo e transições lentas. No segundo, aproveita a energia para ganhar força e estabilidade e, a partir das cerca de 20 semanas, limita o tempo deitada de costas. No terceiro, privilegia conforto, apoios, respiração e preparação para o parto, sempre depois da triagem de saúde.

Porque o trimestre muda a prática

Em cerca de quarenta semanas, o corpo da grávida reorganiza a circulação, a respiração, o equilíbrio hormonal e a estática da coluna. As alterações começam antes de serem visíveis e acumulam-se. A divisão em trimestres é uma convenção clínica, não uma fronteira rígida, mas ajuda o professor a perceber os desconfortos e a antecipar riscos.

A perspetiva da mãe está desenvolvida em o nosso guia de yoga no pré e pós-parto. Aqui, o olhar é o de quem ensina.

Primeiro trimestre (semanas 1 a 12). A hCG, a progesterona e o estrogénio conduzem uma construção quase invisível, com náuseas frequentes e fadiga profunda. O volume sanguíneo e a frequência cardíaca sobem e a tensão arterial tende a descer, o que favorece tonturas ao levantar (Soma-Pillay et al., 2016).

Segundo trimestre (semanas 13 a 27). A energia regressa. Por volta das 20 semanas, o útero chega ao umbigo, o centro de gravidade avança e a lordose acentua-se. A relaxina atinge o pico perto das 12 semanas, mas a laxidez articular cresce até ao fim, e a sua relação com lesões não está estabelecida (Marnach et al., 2003; Dehghan et al., 2014).

Terceiro trimestre (semanas 28 a 40). O útero eleva o diafragma cerca de quatro centímetros e a falta de ar ao esforço torna-se comum. O edema e o refluxo tornam-se frequentes e o risco de queda aumenta. A partir das 28 semanas recomenda-se adormecer de lado (Cronin et al., 2019).

Ideia-chave

É a fisiologia de cada fase, e não um calendário fixo, que orienta as escolhas do professor.

Autorização médica e quando não praticar

O primeiro princípio é não causar dano. Todas as alunas preenchem um questionário de saúde antes de começar, como o Get Active Questionnaire for Pregnancy (CSEP, 2021), revisto a cada trimestre. Perante uma contraindicação relativa ou uma resposta que levanta dúvidas, pede-se autorização à equipa de saúde.

Numa gravidez sem complicações, o exercício moderado é seguro e encorajado desde o início (ACOG, 2020; Mottola et al., 2018) e não aumenta o risco de aborto nem de morte fetal (Davenport et al., 2019a). O professor não diagnostica nem contraria indicações médicas: adapta, reconhece sinais de alarme e encaminha.

Contraindicações absolutas. Rotura de membranas, trabalho de parto pré-termo, placenta prévia a partir das 26 a 28 semanas, pré-eclâmpsia ou incompetência do colo do útero, entre outras. A prática não se inicia, ou suspende-se, e só retoma com indicação médica expressa.

Contraindicações relativas. Hipertensão gestacional, gravidez gemelar depois das 28 semanas, abortos de repetição ou dor pélvica intensa, por exemplo. Uma prática suave pode ser benéfica, mas só com autorização da equipa de saúde e com o professor plenamente informado.

Sinais para parar. Hemorragia, perda de líquido, contrações regulares, dor no peito, dor de cabeça forte, tonturas persistentes e, no terceiro trimestre, diminuição dos movimentos do bebé. Para-se de imediato; nos casos urgentes, contacta-se o SNS 24 (808 24 24 24) ou o 112.

Ideia-chave

Na dúvida, simplifica-se a prática e pergunta-se à equipa de saúde. A autoperceção da aluna informa sobre o conforto, mas não deteta uma tensão arterial elevada.

Praticante grávida em guerreiro IIGuerreiro II, uma postura de pé que muitas vezes se mantém no segundo trimestre.

Como a prática muda do primeiro ao terceiro trimestre

Na gravidez, os ásanas deixam de ser formas a atingir e passam a ser instrumentos. A pergunta não é como se faz uma postura, mas para que serve, para esta mulher, neste momento. Dois princípios atravessam toda a gestação: estabilidade antes de amplitude e barriga livre de compressão.

No primeiro trimestre, as sessões são mais curtas e calmas, com transições lentas e sem torções fechadas. Convém dizer com clareza que praticar menos e descansar mais também é praticar.

O segundo trimestre é, em geral, o melhor período para os ásanas: a energia permite ganhar força nas pernas e nas costas, com suportes para o alinhamento. A partir das cerca de 20 semanas, as posições de costas fazem-se por pouco tempo e com o tronco elevado (ACOG, 2020; Mottola et al., 2019).

No terceiro trimestre, o ritmo abranda, os apoios multiplicam-se e os equilíbrios fazem-se sempre junto à parede ou a uma cadeira. O foco passa para o conforto e a preparação para o parto. O Curso de Yoga na Gravidez e Pós-Parto detalha estas opções postura a postura; aqui fica só o propósito de algumas.

Tadasana. Ensina a encontrar o novo equilíbrio e a distribuir o peso pelos dois pés.

Gato e vaca. Mobiliza a coluna e alivia a lombar. Os quatro apoios aliviam a dor lombar, mas não mudam a posição do bebé ao nascimento (Hunter et al., 2007).

Baddha Konasana. Abre suavemente as ancas e a face interna das coxas.

Balasana de joelhos afastados. Repouso que alivia a lombar sem comprimir a barriga.

Savasana. Relaxamento final, de lado esquerdo ou semirreclinada na segunda metade da gravidez.

Ideia-chave

A postura certa cumpre a sua função no corpo daquele dia; não tem de se parecer com a fotografia de um livro.

Praticante grávida reclinada num bolster em cunha, com os joelhos abertosUma postura reclinada e apoiada para o terceiro trimestre.

Respiração, meditação e relaxamento na gravidez

A progesterona torna o centro respiratório mais sensível ao dióxido de carbono e a grávida passa a ventilar mais. O aumento faz-se sobretudo no volume de cada respiração, que cresce 30 a 50%, com a frequência praticamente igual (LoMauro & Aliverti, 2015). A respiração não fica mais rápida: fica mais ampla, e a falta de ar ligeira é, em regra, fisiológica.

Por isso evitam-se as retenções (kumbhaka), as respirações rápidas como Kapalabhati e Bhastrika e o Uddiyana Bandha. Respirar fundo não oxigena o bebé, porque o sangue materno já está praticamente saturado em repouso. O valor do pranayama está no conforto e na regulação do sistema nervoso.

A meditação na gravidez associa-se a menos ansiedade e sintomas depressivos (Dhillon et al., 2017). O Yoga Nidra não exige esforço nem mobilidade e dá descanso a quem dorme mal; a evidência neurofisiológica ainda é limitada (Kjaer et al., 2002) e a prática não substitui o sono.

Respiração completa. Devolve amplitude e conforto e serve de base às restantes técnicas.

Nadi Shodhana. Respiração alternada, lenta e ritmada, que acalma e ocupa a atenção.

Ujjayi suave. O som discreto abranda a respiração e torna-se útil entre contrações.

Respiração lunar. Versão calmante por uma só narina, útil antes de dormir.

Respiração solar. A única ativadora, de uso restrito a dias de grande cansaço.

O que se aprende no curso

O Curso de Yoga na Gravidez e Pós-Parto é conduzido pela Nélia Rodrigues, formadora da BeYoga para esta área (ver Sobre a BeYoga e a Carla Gonçalves). São 50 horas em 8 unidades, da gravidez ao pós-parto, com 8 meses de acesso e 50 horas de formação contínua Yoga Alliance.

O que este artigo deixa em aberto é trabalhado no curso com método, prática e um projeto final avaliado pela Nélia.

As 39 posturas em vídeo. Demonstradas uma a uma, com as opções de cada trimestre, os cuidados, as contraindicações e a variação para o pós-parto.

Aplicações e preparação para o parto. Saudação ao sol adaptada, mudras, propostas para os desconfortos mais comuns, as cinco respirações em detalhe, Yoga Nidra, posições e visualizações para o parto.

Pós-parto. Regresso à prática depois de parto vaginal ou de cesariana, posturas terapêuticas, diástase abdominal, pavimento pélvico e saúde mental.

Planeamento de aulas. Sequenciação, estrutura da aula, turmas com alunas em trimestres diferentes, ajustes com consentimento e ética, incluindo a proteção de dados de saúde.

Materiais e projeto final. Práticas completas, manual interativo e caderno de exercícios. No fim, o plano escrito e o vídeo de uma aula de 60 minutos, avaliados pela Nélia.


Yoga na gravidez por trimestre: perguntas frequentes

Pode-se começar yoga no primeiro trimestre sem experiência?

Sim, numa gravidez sem contraindicações. Durante muito tempo aconselhou-se a esperar, por receio de aborto, mas esse receio não tem fundamento: o exercício não aumenta o risco de aborto nem de morte fetal (Davenport et al., 2019a). A prática começa depois da triagem de saúde, com intensidade baixa e progressão gradual. Quem tem história de abortos de repetição pratica com autorização médica.

A partir de quando se evita estar deitada de costas no yoga?

A partir das cerca de 20 semanas, o útero pode comprimir a veia cava inferior e reduzir o retorno venoso. A maioria das grávidas não tem sintomas, mas uma minoria sente tonturas, náuseas ou sensação de desmaio. Por prudência, as posições de costas passam a ser breves e com o tronco elevado, e o relaxamento faz-se de lado esquerdo ou semirreclinada (ACOG, 2020; Mottola et al., 2019).

O yoga na gravidez precisa de autorização médica?

Todas as alunas preenchem um questionário de saúde antes de começar. Quando há uma contraindicação relativa, como hipertensão gestacional ou gravidez gemelar depois das 28 semanas, ou quando alguma resposta levanta dúvidas, pede-se autorização à equipa de saúde. Perante contraindicações absolutas, como pré-eclâmpsia ou placenta prévia a partir das 26 a 28 semanas, não se pratica sem indicação médica expressa.

O yoga aumenta a oxigenação do bebé?

Não. A oxigenação fetal depende da circulação placentária e do sangue materno, que numa grávida saudável já está praticamente saturado em repouso (Soma-Pillay et al., 2016). O yoga pode tornar a respiração mais confortável, reduzir a tensão e ajudar a lidar com os sintomas. Um professor credível distingue o que a investigação demonstra do que pertence à tradição.

Que benefícios do yoga pré-natal têm apoio científico?

Revisões de ensaios mostram reduções da ansiedade e dos sintomas depressivos (Davenport et al., 2018; Corrigan et al., 2022), e o yoga associa-se a menos dor lombopélvica (Kwon et al., 2020). Em grávidas saudáveis do terceiro trimestre, 26 posturas não alteraram a frequência cardíaca fetal (Polis et al., 2015). Os efeitos no trabalho de parto ainda são inconsistentes e os estudos são pequenos.

Que técnicas de respiração se evitam na gravidez?

Evitam-se as retenções da respiração, as respirações rápidas ou forçadas como Kapalabhati e Bhastrika e o Uddiyana Bandha. A grávida já ventila mais do que antes, por efeito da progesterona, e estas técnicas provocam facilmente tonturas e aumentam a pressão abdominal. Uma respiração adequada mantém o fluxo contínuo, acalma em vez de estimular e não pede desempenho.

Aprender a ensinar

Curso de Yoga na Gravidez e Pós-Parto

50 horas com a formadora Nélia Rodrigues, as 39 posturas em vídeo e as opções de cada trimestre.

Fontes citadas neste artigo

American College of Obstetricians and Gynecologists [ACOG]. (2020). Physical activity and exercise during pregnancy and the postpartum period (Committee Opinion No. 804). Obstetrics & Gynecology, 135(4), e178-e188.

Canadian Society for Exercise Physiology [CSEP]. (2021). Get Active Questionnaire for Pregnancy. CSEP.

Davenport, M. H., Kathol, A. J., Mottola, M. F., Skow, R. J., Meah, V. L., Poitras, V. J., … Ruchat, S.-M. (2019a). Prenatal exercise is not associated with fetal mortality: A systematic review and meta-analysis. British Journal of Sports Medicine, 53(2), 108-115.

Davenport, M. H., McCurdy, A. P., Mottola, M. F., Skow, R. J., Meah, V. L., Poitras, V. J., … Ruchat, S.-M. (2018). Impact of prenatal exercise on both prenatal and postnatal anxiety and depressive symptoms: A systematic review and meta-analysis. British Journal of Sports Medicine, 52(21), 1376-1385.

Davenport, M. H., Ruchat, S.-M., Sobierajski, F., Poitras, V. J., Gray, C. E., Yoo, C., … Mottola, M. F. (2019b). Impact of prenatal exercise on maternal harms, labour and delivery outcomes: A systematic review and meta-analysis. British Journal of Sports Medicine, 53(2), 99-107.

Mottola, M. F., Davenport, M. H., Ruchat, S.-M., Davies, G. A., Poitras, V. J., Gray, C. E., … Zehr, L. (2018). 2019 Canadian guideline for physical activity throughout pregnancy. British Journal of Sports Medicine, 52(21), 1339-1346.

Mottola, M. F., Nagpal, T. S., Bgeginski, R., Davenport, M. H., Poitras, V. J., Gray, C. E., … Ruchat, S.-M. (2019). Is supine exercise associated with adverse maternal and fetal outcomes? A systematic review. British Journal of Sports Medicine, 53(2), 82-89.

Corrigan, L., Moran, P., McGrath, N., Eustace-Cook, J., & Daly, D. (2022). The characteristics and effectiveness of pregnancy yoga interventions: A systematic review and meta-analysis. BMC Pregnancy and Childbirth, 22, 250.

Hunter, S., Hofmeyr, G. J., & Kulier, R. (2007). Hands and knees posture in late pregnancy or labour for fetal malposition (lateral or posterior). Cochrane Database of Systematic Reviews, 2007(4), CD001063.

Kwon, R., Kasper, K., London, S., & Haas, D. M. (2020). A systematic review: The effects of yoga on pregnancy. European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology, 250, 171-177.

Polis, R. L., Gussman, D., & Kuo, Y. H. (2015). Yoga in pregnancy: An examination of maternal and fetal responses to 26 yoga postures. Obstetrics & Gynecology, 126(6), 1237-1241.

Cronin, R. S., Li, M., Thompson, J. M. D., Gordon, A., Raynes-Greenow, C. H., Heazell, A. E. P., … McCowan, L. M. E. (2019). An individual participant data meta-analysis of maternal going-to-sleep position, interactions with fetal vulnerability, and the risk of late stillbirth. EClinicalMedicine, 10, 49-57.

Dehghan, F., Haerian, B. S., Muniandy, S., Yusof, A., Dragoo, J. L., & Salleh, N. (2014). The effect of relaxin on the musculoskeletal system. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, 24(4), e220-e229.

Marnach, M. L., Ramin, K. D., Ramsey, P. S., Song, S. W., Stensland, J. J., & An, K. N. (2003). Characterization of the relationship between joint laxity and maternal hormones in pregnancy. Obstetrics & Gynecology, 101(2), 331-335.

Soma-Pillay, P., Nelson-Piercy, C., Tolppanen, H., & Mebazaa, A. (2016). Physiological changes in pregnancy. Cardiovascular Journal of Africa, 27(2), 89-94.

Dhillon, A., Sparkes, E., & Duarte, R. V. (2017). Mindfulness-based interventions during pregnancy: A systematic review and meta-analysis. Mindfulness, 8(6), 1421-1437.

Kjaer, T. W., Bertelsen, C., Piccini, P., Brooks, D., Alving, J., & Lou, H. C. (2002). Increased dopamine tone during meditation-induced change of consciousness. Cognitive Brain Research, 13(2), 255-259.

LoMauro, A., & Aliverti, A. (2015). Respiratory physiology of pregnancy. Breathe, 11(4), 297-301.

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