Mumbai: o que a Índia nos ensinou antes de chegarmos ao tapete
A cidade que abre as portas da Índia: as grutas de Elephanta, os macacos e uma cidade vibrante. No cimo da ilha, templos escavados na pedra há mais de mil anos, onde as figuras que se estudam na formação deixam de ser imagens num manual.
Na nossa viagem à Índia, Mumbai foi o primeiro destino e recebeu-nos em alto e bom som.
Para quem chega de Portugal, a cidade pode ser particularmente intensa. A enorme densidade populacional sente-se nas ruas, no trânsito, nos vendedores, no ruído constante das buzinas e numa forma de conduzir muito diferente daquela a que estamos habituados. Juntam-se os cheiros, os animais e uma quantidade de informação visual difícil de absorver nos primeiros momentos.
Ao mesmo tempo, há coisas em que reparámos logo. Entre duas montras, à porta de uma loja ou encostados a um muro, aparecem pequenos altares dedicados a Ganesha, o deus com cabeça de elefante que se invoca antes de começar seja o que for. Não estão num templo: estão no meio do trabalho das pessoas, com flores frescas e incenso aceso ao lado da caixa registadora. Vê-los assim, sem cerimónia nenhuma, diz mais sobre o lugar do sagrado na Índia do que muito do que tínhamos lido antes de partir.
Em Colaba, junto à água, a cidade muda de escala. O grande arco de basalto virado para o mar é o Gateway of India, concluído em 1924 para receber quem chegava de barco ao país. É também dali que partem os barcos para Gharapuri. Mesmo em frente fica o Taj Mahal Palace, o hotel de 1903 que domina a praça, com as cúpulas vermelhas que aparecem em todas as fotografias da cidade. Entre o arco, o hotel e as pessoas que ali vendem chá e bugigangas cabe, em poucos metros, quase tudo o que Mumbai nos ia mostrar nos dias seguintes.


O caminho até Gharapuri
Um dos principais motivos para termos escolhido Mumbai como ponto de partida eram as Elephanta Caves, na ilha de Gharapuri. O percurso até à ilha mostrou-nos desde logo um dos contrastes que mais nos acompanhariam: paisagens muito bonitas coexistiam com uma quantidade de lixo que nos surpreendeu. Era visível junto à água, no chão e em diferentes pontos do caminho.


Este foi também um exercício de não julgamento. Para nós, ver alguém deitar lixo para o chão provoca uma reação quase imediata, porque crescemos com determinadas referências e hábitos. Estar noutro contexto obriga-nos a reconhecer essa reação sem concluir imediatamente que a nossa forma de olhar e de agir nos dá o direito de julgar quem vive numa realidade que conhecemos tão pouco. Não significa deixar de ver o lixo ou achar que não é um problema.
Depois de desembarcarmos, seguimos pela longa escadaria que conduz às grutas, ladeada por pequenas bancas e vendedores. Vendedores experientes: iam-nos entregando coisas pelo caminho, sempre com a promessa de que, à descida, comprávamos alguma coisa. Pelo caminho encontrámos também imensos macacos e rapidamente percebemos os termos daquela amizade: enquanto houvesse comida, éramos muito interessantes. Sem comida, nem por isso.



Elephanta: os deuses que estudámos, esculpidos na pedra
As Elephanta Caves são um conjunto de templos escavados diretamente na rocha, cuja construção é geralmente situada entre os séculos V e VI. O complexo é dedicado sobretudo a Shiva e está classificado como Património Mundial pela UNESCO desde 1987. Para o nosso grupo, porém, a importância daquele lugar não estava apenas na sua dimensão histórica.
Durante a Formação de Professores de Yoga estudamos História e Filosofia do Yoga e encontramos muitas das figuras e dos símbolos associados à tradição hindu. Nas Elephanta Caves tivemos a oportunidade de estar perante algumas dessas representações no seu contexto cultural e histórico.
A ilha chama-se Gharapuri e fica a cerca de dez quilómetros do porto de Mumbai; chega-se de barco, numa travessia de perto de uma hora. O conjunto principal, a chamada Gruta 1, não foi construído: foi escavado para dentro da montanha, de cima para baixo, até deixar de pé as colunas que hoje sustentam o tecto.


Ao longo do complexo surgem diferentes manifestações de Shiva, entre as quais Nataraja, Yogishvara e Ardhanarishvara. Para quem tinha estudado estas referências durante a formação, vê-las ali, esculpidas na pedra há mais de mil anos, deu-lhes inevitavelmente outra dimensão!
Passámos bastante tempo nas grutas, a observar não apenas as esculturas, mas também a forma como as pessoas se relacionavam com aquele espaço. Descalçámo-nos onde era necessário e acompanhámos alguns dos gestos e pequenos rituais que nos foram sendo apresentados.


Não fomos à Índia com a pretensão de compreender em poucos dias uma tradição e uma cultura tão vastas. Interessava-nos precisamente o contrário: aproximarmo-nos do contexto de muitas das referências que estudamos e perceber melhor aquilo que, visto à distância, facilmente simplificamos.
No regresso das Elephanta Caves encontrámos também algumas crianças locais e acabámos por passar algum tempo a brincar com elas. A barreira linguística existia, mas não impediu que se inventassem jogos e formas muito simples de comunicar.
O contraste
Sabyasachi e o fosso entre os pobres e os ricos
Mumbai mostrou-nos também, desde muito cedo, contrastes sociais difíceis de ignorar. Um dos exemplos mais evidentes surgiu numa visita que nem sequer estava planeada. Entrámos na flagship de Sabyasachi, do designer indiano Sabyasachi Mukherjee e encontrámos um espaço absolutamente extraordinário, dedicado à moda, joalharia e artesanato indiano.
A qualidade dos materiais, o trabalho artesanal, os tecidos, os bordados e a própria construção do espaço mereciam tempo e atenção. (Aparentemente, o facto de sermos um grupo de europeus particularmente interessado em roupa de cerimónia levou também a equipa a concluir que alguém estaria a preparar um casamento e começaram a mostrar-nos algumas das peças.)
Tínhamos passado por zonas onde a pobreza era muito visível e estávamos agora num espaço onde algumas peças custavam milhares de euros. Realidades muito diferentes coexistem permanentemente na mesma cidade e, enquanto visitantes, nem sempre é confortável confrontarmo-nos com elas.



Sair de Mumbai
Durante a nossa passagem por Mumbai ficámos no Hotel Causeway, em Colaba, uma zona que nos permitiu estar bastante próximos de muitos dos lugares que queríamos conhecer. Foi também em Colaba que jantámos no SOCIAL, numa experiência bastante diferente daquilo que encontrávamos durante o dia nas ruas. Comemos também no Leopold Café, aberto em 1871 e a poucos passos do hotel, em pleno Colaba Causeway. É um dos sítios mais conhecidos da cidade. Voltámos lá várias vezes: a comida estava deliciosa.
Encontrámos um património extraordinário e lugares que nos permitiram reconhecer, no seu contexto, referências que faziam parte do nosso estudo do Yoga. Encontrámos pessoas com realidades muito diferentes da nossa, uma cidade com uma escala a que não estamos habituados e diferenças culturais que por vezes despertaram curiosidade e, noutras, algum desconforto.
Foi exatamente por isso que Mumbai fez sentido como primeira paragem. Conhecer outras culturas não significa gostar de tudo o que encontramos, nem procurar uma explicação espiritual para tudo aquilo que vemos. Significa também estar disponível para observar as diferenças, reconhecer as nossas próprias referências e regressar com uma visão um pouco mais ampla do mundo.
Coordenadora Pedagógica · BeYoga School